


Hoje acordei
e o perfume do café
subiu lento,
como se fosse a própria voz da minha alma
numa manhã levemente fria.
Pode parecer amargo,
mas é intensidade pura:
quente, único,
um sopro de fantasia.
Não lembro se um dia
esqueci de prepará-lo ao despertar.
Se esqueci,
foi falha no cuidado mais sagrado:
o de me colocar em primeiro lugar,
de me nutrir de dentro para fora.
O café passado
é fruto de um longo rito:
plantar, cuidar, colher as sementes,
torrar, triturar, embalar;
eu, enfim, comprá-lo.
Aquecer a água no ponto exato:
nem fervura impiedosa,
nem tepidez distraída.
Assim é o aroma
que hoje inunda minha casa,
a sala, a cozinha,
a própria existência.
Properly brewed coffee is like the warmth of my heart’s cordiality.
E declaro:
esta será a última primavera
em que a dor
tentará morar em meu coração.
Pain will not return to my heart!
Quero ser tratada
como meu café:
com rituais delicados,
sistemáticos,
até que, por fim,
o prazer seja pleno.
If it’s not like that, I don’t want it!
If someone can’t treat me with care,
my heart stays closed.
Be like my coffee:
come hot with delight
or vanish
into the silence of my life.
Hummm...
o cheiro permanece,
suave e persistente,
a lembrança viva
de que a felicidade
também se prepara com cuidado.
The care my heart deserves.
Today the coffee is ready once again:
a warm call to the morning,
ready for life,
ready to be lived to the fullest;
and my heart opens wide,
welcoming every good thing
the day dares to bring.