Textos


MAGNETO

Como é dormir numa sexta-feira

e acordar num sábado,

com o peso quieto da solidão

que não se cura,

nem se dissolve no café da manhã.

 

Os homens — ah, os homens —

chegam como sombras difusas:

ou meninos perdidos (à procura de uma mãe),

ou preguiçosos de alma (que adormecem diante da vida),

ou comprometidos (com namoradas ou esposas),

ou com complexos de Don Juan —

colecionadores de sóis e luas,

que beijam todas,

mas amam nenhuma.

 

Com base nisso,

e ainda com a esperança ingênua

de encontrar minha metade perdida,

escolho o silêncio —

companheiro discreto,

a margem vazia do corpo,

a cama inteira,

o lençol da liberdade

que também fere,

mas me veste de paz.

 

Ser só, por escolha,

é arte e castigo,

exercício antigo

de domar o próprio abrigo.

É lição de silêncio,

respiração contida,

treino de paciência

que escapa da vida.

 

E o coração, teimoso,

segue seu magneto insensato —

um sol girando em torno de sombras,

um farol que chama naufrágios,

um íman exausto

que atrai tempestades

e se apaixona por abismos.

 

Ama o que se ausenta,

deseja o impossível,

e pulsa

como se a própria ferida

fosse o único abrigo.

 

Assim é,

a solidão:

flor que desabrocha no deserto,

minha decisão mais difícil

e, talvez,

minha mais sincera forma de amor —

a que aprende a florescer

sem testemunhas,

porque é unicamente minha a escolha

de permanecer ilha entre oceanos,

de guardar o silêncio como abrigo,

quando as marés

trazem mais espinhos que conchas,

e as mazelas são menores

que o vazio de ter ao lado

um corpo perdido.

Tatiana Pereira Tonet
Enviado por Tatiana Pereira Tonet em 18/10/2025
Alterado em 18/10/2025
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