


Como é dormir numa sexta-feira
e acordar num sábado,
com o peso quieto da solidão
que não se cura,
nem se dissolve no café da manhã.
Os homens — ah, os homens —
chegam como sombras difusas:
ou meninos perdidos (à procura de uma mãe),
ou preguiçosos de alma (que adormecem diante da vida),
ou comprometidos (com namoradas ou esposas),
ou com complexos de Don Juan —
colecionadores de sóis e luas,
que beijam todas,
mas amam nenhuma.
Com base nisso,
e ainda com a esperança ingênua
de encontrar minha metade perdida,
escolho o silêncio —
companheiro discreto,
a margem vazia do corpo,
a cama inteira,
o lençol da liberdade
que também fere,
mas me veste de paz.
Ser só, por escolha,
é arte e castigo,
exercício antigo
de domar o próprio abrigo.
É lição de silêncio,
respiração contida,
treino de paciência
que escapa da vida.
E o coração, teimoso,
segue seu magneto insensato —
um sol girando em torno de sombras,
um farol que chama naufrágios,
um íman exausto
que atrai tempestades
e se apaixona por abismos.
Ama o que se ausenta,
deseja o impossível,
e pulsa
como se a própria ferida
fosse o único abrigo.
Assim é,
a solidão:
flor que desabrocha no deserto,
minha decisão mais difícil
e, talvez,
minha mais sincera forma de amor —
a que aprende a florescer
sem testemunhas,
porque é unicamente minha a escolha
de permanecer ilha entre oceanos,
de guardar o silêncio como abrigo,
quando as marés
trazem mais espinhos que conchas,
e as mazelas são menores
que o vazio de ter ao lado
um corpo perdido.