


Passei anos acreditando
que eu tinha nas mãos
as rédeas invisíveis do mundo,
como se a vida fosse um cavalo manso
esperando meus comandos,
como se o tempo obedecesse
ao estalar dos meus dedos.
Quis controlar tudo:
as pessoas,
os gestos,
as marés que não me pertenciam.
Tentei ser relógio, bússola,
vento contrário,
guardiã de universos que não eram meus.
E um dia,
no silêncio que fica entre um passo e outro,
descobri que controlar a vida
é como tentar costurar nuvens,
segurar água entre as mãos,
plantar raízes no ar.
Percebi que meu cotidiano,
feito de estudos, horas marcadas,
trabalhos que me atravessavam,
era apenas um cômodo da casa,
não a casa inteira.
A vida…
ah, a vida é o todo!
Ela é floresta,
é tempestade e clarão,
é pássaro que não aceita gaiola,
é rio que muda de curso
mesmo quando ninguém está olhando.
A vida dança antes que a música comece,
abre asas antes que o céu amanheça,
chama pelo meu nome
como quem acende um farol
no meio da alma.
A vida é bela!
bela como um raio atravessando a noite,
como um perfume que insiste em ficar na memória,
como o mar que não sabe ser pequeno.
Então vamos dançar
antes que o tempo feche as cortinas.
Vamos beber do agora
como quem encontra fonte no deserto.
Porque o amanhã
é um pássaro que talvez não pouse,
e o passado
é pedra que já se acomodou no fundo do rio.
Mas eu,
eu finalmente solto as rédeas,
abro os dedos,
respiro fundo
e deixo a vida correr
livre,
selvagem,
inteira.