


O que é a dor da paixão?
Será a frustração do “outro”
que não corresponde
à forma como o meu desejo o imagina?
Será a imagem deturpada
que o inconsciente insiste em pintar,
ou a paranoia silenciosa do meu próprio “eu”,
tateando sombras como se fossem luz?
Talvez seja apenas o desenho borrado
que repousa sobre a mesa,
claro demais para quem, enfim, decide olhar.
Afinal, o que é a paixão?
Quem sabe seja a projeção mais linda
que a alma, em seu mistério divino, é capaz de criar:
um contorno idealizado,
o belo, o agradável, o infinitamente desejável.
É intensidade pura, desmedida,
que apaga falhas, suaviza arestas,
ignora defeitos, inventa virtudes.
A paixão é o meu próprio reflexo
colocado no corpo do “outro”:
ele é bom, é doce, é responsável,
é tudo aquilo que fantasiei
para habitar o espaço ao meu lado.
E quando esse “outro” se desfaz,
quando sua ausência corta mais fundo
do que qualquer presença poderia,
a dor me lança ao abismo da própria mente:
questiono minha sanidade,
meu discernimento, meus passos,
como se o erro fosse eu e, talvez, seja.
Até que, num instante de lucidez,
percebo aquilo que sempre esteve ali:
o “outro” que perdi
nunca existiu fora de mim.
Era um sopro inventado,
uma criação da minha própria alma,
a máscara perfeita
que vesti com minhas expectativas.
Nada além disso!
E, ainda assim,
tão humano,
tão profundo,
tão dolorosamente meu
e nunca desse “outro”.
Foi apenas uma tela flutuando no oceano azul,
uma imagem que eu mesma pintei
no silêncio do meu coração
e na profundidade da minha alma.