


Hoje ainda acordei
com dor no coração —
um coração partido —
mas dói menos
que ontem,
que anteontem,
que na última semana,
que nas últimas duas ou três...
O pior já passou!
Passou como uma tormenta
que veio sem pedir licença:
rompeu barragens,
quebrou casas,
estilhaçou vidros,
arrastou pedras,
derrubou árvores inteiras.
O vento cessou.
A fúria da tempestade também.
Ficou o estrago.
E agora,
com mãos trêmulas,
vou organizando os restos
na minha alma,
na minha mente,
no meu ser.
Para que tanta dor no mundo,
meu Deus?
Ainda não sei a resposta.
Só sei que sentimentos fortes
carregam esse paradoxo cruel:
uma alegria sobre-humana
e, ao mesmo tempo,
devastadora.
Tento entender a dor
como processo,
como travessia,
como sinal.
Porque, no fundo,
se sinto,
é porque estou viva.
E, se estou viva,
sentirei tudo com profundidade
neste coração cheio de cicatrizes.