


O que é permanecer forte
quando tudo desaba por dentro
e apenas o corpo,
teimoso,
segue em pé,
a duras custas?
O que é ser mulher
num mundo que exige razão,
lógica, contenção,
e esquece
que somos feitas também
de lágrimas não ditas,
de emoções empilhadas no silêncio?
Onde deixei os amores
que se perderam no caminho?
Em que curva do tempo
ficou minha dignidade,
engolida por este caos
que me atravessa?
Pergunto-me onde estou.
Para onde ir...
Mas a vida não concede mapas,
nem controle,
nem esse conforto imaginário
de saber o próximo passo.
Queria apenas conter o choro,
apagar os bons momentos,
crueldade maior,
porque são eles
que doem na ausência.
Não quero mais atravessar
esse mesmo abismo.
É ilusão,
é destino desfavorável,
é a solidão me consumindo
como se hoje fosse o último dia.
E, ainda assim, eu sei:
não é o fim.
É só uma fase,
desprezível,
mas passageira.
Continuarei amando,
mesmo sabendo
o preço alto do sentir.
Porque é nisso que mora
minha esperança.
É por isso que me sinto viva.
É por isso que estou viva.
Se nada disso doesse,
eu já não sentiria mais
o pulsar do mundo em mim.