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O AMOR QUE IMPEDE
Não me lembro
da última vez
em que o ódio
me atravessou assim...

Inteiro,
denso,
cruel,
sem intervalo para respirar...

Ódio da injustiça,
que se repete como rotina,
ódio do descaso,
que pesa mais do que o silêncio,
ódio da indiferença,
essa ausência que fere.

Ódio
de ver privilégios distribuídos
como favores
enquanto outros
se desfazem à margem.

Há em mim
um impulso bruto,
quase um grito sem forma,
uma vontade de romper
com tudo
que me ensinaram a conter...
fazer justiça
com as próprias mãos,
como se a lei
fosse apenas um detalhe
diante daquilo
que arde por dentro.

Por um instante,
não me importam
as consequências,
os nomes,
os abismos
que podem se abrir depois.

Ainda há um fio
que me puxa de volta,
um nome que me ancora
quando tudo em mim
quer desabar: minha filha!

É por ela
que contenho o gesto,
é por ela
que recolho a fúria
antes que vire ruína,
é por esse amor imenso
que não me permito
atravessar o limite.
e então, no limite,
escrevo.

É no fio da palavra
que contenho o caos.

É na escrita
que desarmo a fúria.

É nela que o ódio
não me devora inteira.
Tatiana Pereira Tonet
Enviado por Tatiana Pereira Tonet em 13/04/2026
Alterado em 13/04/2026
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