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A INDELICADEZA DO MUNDO

Houve uma manhã

em que despertei acreditando

na delicadeza possível do mundo.

 

Como quem abre a janela

esperando encontrar intacto o jardim,

após a violência da tempestade.

 

Meu coração havia caminhado distraído

pela breve fantasia

de que a humanidade ainda guardava

alguma pureza escondida em suas entranhas.

 

Pensei, ingenuamente,

que os homens talvez houvessem aprendido

a tocar a vida sem feri-la.

 

Que os animais não seriam sacrificados

pela fome da brutalidade.

Que as pessoas não atravessariam umas às outras

como lâminas atravessam a seda.

 

Mas a realidade,

essa velha senhora de mãos frias,

ergueu lentamente o véu da manhã

e revelou, mais uma vez,

o subterrâneo escuro da condição humana.

 

Doce ilusão.

Tão doce

quanto flores frágeis, recém colhidas.

 

Desde então permaneço suspensa

entre duas maneiras de olhar o mundo:

há os olhos endurecidos pela dor,

que enxergam apenas ruínas,

e há os olhos mansos,

que insistem em procurar luz

mesmo quando o horizonte

se encontra coberto de fumaça densa.

 

Não sei quais deles devo escolher?

 

Os homens chamam a si mesmos de racionais,

mas frequentemente utilizam a inteligência

como arquitetos da destruição e a opressão.

 

Transformaram a razão

num mecanismo refinado de ambição,

capaz de justificar guerras,

silêncios,

fomes

e toda espécie de ausência moral.

 

Há uma ferrugem invisível

corroendo lentamente o espírito do mundo...

 

Ela vive nas pequenas crueldades cotidianas,

na indiferença elegante,

na cobiça que devora florestas, oceanos

e até mesmo a delicadeza dos afetos.

 

E penso, com tristeza

naquilo que deixaremos

às gerações futuras.

 

Que herança ofereceremos

às crianças que ainda nem aprenderam

a pronunciar o próprio nome?

 

Talvez um planeta cansado,

céus fatigados e

corações treinados para sobreviver.

 

Porque, no fundo,

somos apenas poeira provisoriamente iluminada,

cadáveres adiados pelo tempo,

mãos vazias acumulando excessos

na ilusão de permanecer.

Tatiana Pereira Tonet
Enviado por Tatiana Pereira Tonet em 12/05/2026
Alterado em 12/05/2026
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