


Houve uma manhã
em que despertei acreditando
na delicadeza possível do mundo.
Como quem abre a janela
esperando encontrar intacto o jardim,
após a violência da tempestade.
Meu coração havia caminhado distraído
pela breve fantasia
de que a humanidade ainda guardava
alguma pureza escondida em suas entranhas.
Pensei, ingenuamente,
que os homens talvez houvessem aprendido
a tocar a vida sem feri-la.
Que os animais não seriam sacrificados
pela fome da brutalidade.
Que as pessoas não atravessariam umas às outras
como lâminas atravessam a seda.
Mas a realidade,
essa velha senhora de mãos frias,
ergueu lentamente o véu da manhã
e revelou, mais uma vez,
o subterrâneo escuro da condição humana.
Doce ilusão.
Tão doce
quanto flores frágeis, recém colhidas.
Desde então permaneço suspensa
entre duas maneiras de olhar o mundo:
há os olhos endurecidos pela dor,
que enxergam apenas ruínas,
e há os olhos mansos,
que insistem em procurar luz
mesmo quando o horizonte
se encontra coberto de fumaça densa.
Não sei quais deles devo escolher?
Os homens chamam a si mesmos de racionais,
mas frequentemente utilizam a inteligência
como arquitetos da destruição e a opressão.
Transformaram a razão
num mecanismo refinado de ambição,
capaz de justificar guerras,
silêncios,
fomes
e toda espécie de ausência moral.
Há uma ferrugem invisível
corroendo lentamente o espírito do mundo...
Ela vive nas pequenas crueldades cotidianas,
na indiferença elegante,
na cobiça que devora florestas, oceanos
e até mesmo a delicadeza dos afetos.
E penso, com tristeza
naquilo que deixaremos
às gerações futuras.
Que herança ofereceremos
às crianças que ainda nem aprenderam
a pronunciar o próprio nome?
Talvez um planeta cansado,
céus fatigados e
corações treinados para sobreviver.
Porque, no fundo,
somos apenas poeira provisoriamente iluminada,
cadáveres adiados pelo tempo,
mãos vazias acumulando excessos
na ilusão de permanecer.