


Há homens
que, ao tocarem o poder,
passam a acreditar
que também possuem o direito
de tocar, moldar e ferir os corpos alheios.
Como se o corpo do outro
deixasse de ser sagrado
e se transformasse apenas
em território de comando.
Há algo profundamente sombrio
na embriaguez do poder.
O poder raramente grita;
ele sussurra pelos corredores,
habita instituições, discursos, uniformes,
e aprende lentamente
a habitar a carne humana.
Foucault tem razão!
O poder não vive somente nos palácios,
mas circula invisível
entre olhares, normas e vigilâncias,
fazendo do corpo
o seu mais silencioso campo de batalha.
O corpo vigiado.
O corpo disciplinado.
O corpo punido.
O corpo treinado para obedecer.
E aquele que domina
muitas vezes acredita possuir
autoridade absoluta sobre a existência do outro,
como se autoridade fosse sinônimo de propriedade.
Por isso existem homens
que silenciam, humilham, violentam,
torturam e esmagam,
não apenas pela crueldade em si,
mas pela sensação intoxicante
de perceber outro ser humano
submisso às suas mãos.
Há poderes que não desejam apenas governar;
desejam penetrar a subjetividade,
domesticar gestos,
controlar desejos,
regular até mesmo
a maneira como alguém respira o próprio medo.
E assim o mundo segue:
corpos atravessados por ordens invisíveis,
vidas medidas pela utilidade,
afetos comprimidos
pela maquinaria fria do domínio.
Ainda assim,
em algum lugar escondido da alma humana,
sobrevive uma pequena resistência.
Uma luz mínima.
Uma recusa silenciosa.
Porque nem todo corpo ajoelhado
pertence àquele que o oprime.