


Para Ana Luísa:
Minha querida filha,
anjo da minha vida,
quando você nasceu,
o tempo silenciou por um instante,
como se o próprio universo
houvesse interrompido sua eternidade
para contemplar o milagre suave da sua chegada.
E eu já a amava antes mesmo de conhecer
o som do seu choro,
o desenho das suas mãos e pés,
a luz de seus olhos.
Olhei para você
com o espanto sagrado
de quem vê uma estrela nascer
dentro da própria casa.
Como poderia ser tão bela?
Seu pequeno corpo repousava em meus braços
como uma aurora recém-criada:
frágil, luminosa,
feita da delicadeza das primeiras manhãs do mundo.
E naquele instante compreendi
que o amor verdadeiro
não nasce da posse,
mas do cuidado.
Você nunca pertenceu a mim!
Talvez Deus apenas tenha me escolhido
para acompanhar seus passos pela vida,
guardar sua luz
e proteger a pureza da sua alma
em meio às sombras deste mundo.
E eu cuidei de você
como quem protege uma chama acesa
durante a tempestade.
Amei cada detalhe da sua existência:
seus olhos curiosos descobrindo o mundo,
os primeiros passos vacilantes pela casa,
o riso breve transformando os dias,
e até mesmo o choro das madrugadas insones,
quando o silêncio parecia abraçar nossa solidão.
Amei também suas lágrimas,
porque cada dor sua
atravessava meu peito
como se nossos corações
batessem dentro do mesmo corpo.
Você sempre me pareceu
uma obra cuidadosamente desenhada por Deus:
tão viva,
tão delicada,
tão profundamente única.
E desde a sua chegada,
já não existe em mim
um “eu” completamente separado de você.
Sua alma passou a habitar a minha
como o oceano habita as profundezas,
deixando, todos os dias,
memórias eternas.
Mesmo após o silêncio definitivo
que um dia há de alcançar minha vida,
espero, com uma ternura dolorosa,
que ele me encontre antes de alcançar você.
E assim sigo os meus dias,
contemplando a dádiva da sua existência,
como um presente que Deus concedeu à minha vida.