


Para Ana Luísa:
No dia 31 de outubro,
quando a primavera já espalhava perfume
pelos jardins do mundo,
você nasceu.
E naquela manhã,
as flores pareciam compreender
aquilo que meu coração ainda tentava aprender:
que a vida pode florescer de maneira tão intensa
a ponto de transformar completamente
a existência de alguém.
Sua chegada trouxe primavera para dentro de mim.
Antes de você,
havia estações silenciosas,
dias que passavam como ventos distraídos,
céus sem cor suficiente para permanecer na memória.
Mas então você veio,
pequena, luminosa,
com mãos delicadas
e olhos ainda aprendendo a reconhecer o mundo
e tudo começou a florescer.
Floresceram os meus dias.
Floresceram os meus sonhos.
Floresceu até mesmo
a parte mais esquecida da minha alma.
A maternidade chegou assim:
como um jardim abrindo lentamente
depois de um longo inverno.
E eu olhava para você
com o espanto sagrado
de quem vê uma rosa nascer
em meio ao deserto.
Como poderia existir algo tão belo?
Seu pequeno corpo repousava em meus braços
com a leveza das pétalas ao amanhecer,
frágil e ao mesmo tempo cheio de vida,
como se Deus houvesse colocado
a própria primavera
entre as minhas mãos.
Foi então que compreendi
que amar um filho
é permitir que a primavera
floresça para sempre dentro do peito.
Você nunca pertenceu a mim;
eu apenas fui escolhida
para cuidar da flor mais delicada
que Deus colocou em meu jardim.
E eu a reguei com amor,
protegendo suas pétalas
do frio e das tempestades do mundo.
Seus risos espalharam perfume pelos dias,
seus pequenos passos aqueceram minha alma
como manhãs suaves de outubro.
Desde a sua chegada,
meu coração tornou-se primavera:
cheio de cores,
de perfume,
de vida florescendo em silêncio.
Porque você, Ana Luísa,
é a estação mais bonita
que já existiu em mim.
Minha primavera eterna.
A flor mais rara
que Deus permitiu
desabrochar em meus braços.