


Há uma estranha inclinação humana
para buscar refúgio longe da dor.
Desde os primeiros passos da existência,
aprendemos a construir abrigos invisíveis,
lugares onde o sofrimento parece não alcançar
a delicada arquitetura dos nossos sonhos.
Fugimos...
Fugimos para o trabalho excessivo,
para os amores impossíveis,
para os vícios,
para as distrações,
para as fantasias que inventamos
quando a realidade se torna pesada demais.
Mas a realidade permanece...
Silenciosa,
paciente,
à espera.
Freud advertia que a fuga
não constitui o melhor caminho
para enfrentar aquilo que nos fere.
Pois aquilo que evitamos
não desaparece.
Permanece habitando os corredores da memória,
escondido nas sombras do inconsciente,
aguardando o instante oportuno
para retornar.
E a realidade,
por vezes tão cruel,
segue caminhando ao nosso lado.
Ela traz consigo perdas.
Perdas pequenas,
quase imperceptíveis.
E perdas profundas,
capazes de alterar a paisagem inteira da alma.
A perda de quem amamos,
dos sonhos,
das versões de nós mesmos,
que jamais voltarão a existir.
Algumas dessas dores reconhecemos com clareza.
Outras permanecem ocultas,
agindo em silêncio,
movendo nossos gestos,
medos,
escolhas,
sem que sequer percebamos.
Talvez viver não seja aprender a fugir.
Talvez seja aprender a permanecer.
Olhar a dor sem desviar os olhos.
Aceitar que certas feridas
não foram feitas para desaparecer,
mas para ensinar e serem ressignificadas.
Compreender, enfim,
que a coragem não consiste em escapar das sombras,
mas em atravessar a longa noite da existência
sem permitir que a escuridão
se aposse definitivamente da própria luz.
Porque há dores que nos visitam
como invernos rigorosos,
e a verdadeira bravura talvez resida
em proteger a delicada primavera do espírito
até que ela encontre novamente
a estação de florescer.