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FUGA DA REALIDADE

Há uma estranha inclinação humana

para buscar refúgio longe da dor.

 

Desde os primeiros passos da existência,

aprendemos a construir abrigos invisíveis,

lugares onde o sofrimento parece não alcançar

a delicada arquitetura dos nossos sonhos.

 

Fugimos...

 

Fugimos para o trabalho excessivo,

para os amores impossíveis,

para os vícios,

para as distrações,

para as fantasias que inventamos

quando a realidade se torna pesada demais.

 

Mas a realidade permanece...

 

Silenciosa,

paciente,

à espera.

 

Freud advertia que a fuga

não constitui o melhor caminho

para enfrentar aquilo que nos fere.

Pois aquilo que evitamos

não desaparece.

 

Permanece habitando os corredores da memória,

escondido nas sombras do inconsciente,

aguardando o instante oportuno

para retornar.

 

E a realidade,

por vezes tão cruel,

segue caminhando ao nosso lado.

 

Ela traz consigo perdas.

Perdas pequenas,

quase imperceptíveis.

E perdas profundas,

capazes de alterar a paisagem inteira da alma.

 

A perda de quem amamos,

dos sonhos,

das versões de nós mesmos,

que jamais voltarão a existir.

 

Algumas dessas dores reconhecemos com clareza.

Outras permanecem ocultas,

agindo em silêncio,

movendo nossos gestos,

medos,

escolhas,

sem que sequer percebamos.

 

Talvez viver não seja aprender a fugir.

Talvez seja aprender a permanecer.

 

Olhar a dor sem desviar os olhos.

Aceitar que certas feridas

não foram feitas para desaparecer,

mas para ensinar e serem ressignificadas.

 

Compreender, enfim,

que a coragem não consiste em escapar das sombras,

mas em atravessar a longa noite da existência

sem permitir que a escuridão

se aposse definitivamente da própria luz.

 

Porque há dores que nos visitam

como invernos rigorosos,

e a verdadeira bravura talvez resida

em proteger a delicada primavera do espírito

até que ela encontre novamente

a estação de florescer.

Tatiana Pereira Tonet
Enviado por Tatiana Pereira Tonet em 01/06/2026
Alterado em 01/06/2026
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