


Quem sou
em meio à massa
que atravessa as ruas,
os dias,
os séculos?
Quem sou
entre milhares de rostos
que caminham
como se o caminho
fosse sempre o mesmo?
Sou apenas
mais um corpo
obedecendo ao relógio,
repetindo gestos
que já nasceram prontos,
cumprindo
os ritos diários da existência
sem jamais perguntar
por quê.
A sociedade
escreve meu nome
antes mesmo
que eu aprenda a pronunciá-lo.
A cultura
costura minha pele,
modela minha voz,
escolhe meus medos,
meus desejos,
minhas certezas.
As religiões,
filhas da própria cultura,
oferecem respostas
antes que a dúvida
possa nascer.
E eu,
convencida de escolher,
apenas percorro
estradas
que outros desenharam.
Então,
onde mora
o livre-arbítrio?
Existe mesmo
essa liberdade
que tanto celebramos?
Talvez reste apenas
uma fresta,
um sopro,
um intervalo
entre aquilo que esperam de nós
e aquilo que ousamos ser.
Porque, no fundo,
é a sociedade
que molda o barro
antes mesmo
de percebermos
que somos barro.
E chamamos de liberdade
o movimento
das correntes
quando o vento muda.
Alienados,
seguimos.
E o mais inquietante
não é o cárcere.
É não enxergar
as grades.