Textos


UM MAR DE AMOR

Será que ainda é possível encontrar o amor?

Haverá, entre tantas almas errantes,

alguém disposto a permanecer,

a escolher uma única mulher,

a fazer dela seu porto,

seu abrigo,

seu amor?

 

Pergunto-me

se ainda existe profundidade

em um mundo de afetos tão rasos,

onde os encontros são passageiros,

as promessas se dissolvem

e os sentimentos parecem ter perdido

a coragem de criar raízes.

 

O que é ser mulher

neste mundo tão solitário de virtudes?

É desejar a inteireza de um amor

quando tantos se contentam

com a superfície dos corpos?

 

Caminho sozinha pela praia,

enquanto meus pensamentos

se perdem na imensidão do horizonte...

 

Observo as ondas

que se lançam contra a areia,

intensas, incessantes,

como se procurassem algo

que nunca conseguem alcançar.

 

Será que a busca pelo amor

também é assim?

 

Um eterno movimento

de aproximação e partida,

de esperança e desencanto,

de encontros que chegam

apenas para novamente partir?

 

As ondas não desistem.

Retornam,

mesmo depois de se desfazerem.

Tocam a areia,

recuam,

e voltam a procurá-la,

como se amar fosse também

a coragem de recomeçar.

 

Gosto do som do mar...

Há nele uma espécie de consolo,

uma linguagem sem palavras

que compreende minha solidão.

 

As ondas me abraçam

sem exigir que eu seja outra,

sem me pedir que diminua

a profundidade do que sinto.

 

Talvez por isso

eu encontre no mar

aquilo que tanto procuro no amor:

a intensidade,

a entrega,

a liberdade de existir

sem precisar esconder

a imensidão que habita em mim.

 

Será que um dia

alguém atravessará o deserto

para encontrar meu oceano?

 

Alguém que não tema minhas profundezas,

que não confunda liberdade com ausência,

nem amor com posse,

mas que escolha permanecer

mesmo quando as águas estiverem agitadas?

 

Não desejo ser apenas

mais uma onda na vida de alguém,

um instante de espuma

que o tempo apaga na areia.

Desejo ser mar,

ser horizonte,

ser presença,

ser o amor que não precisa disputar

o lugar que lhe pertence.

 

Enquanto esse amor não chega,

continuo caminhando pela praia,

ouvindo o murmúrio das águas,

deixando que o vento

acaricie meus cabelos

e que a imensidão do mar

acolha minhas perguntas.

 

Porque o mar,

as ondas

e o amor

têm algo em comum:

todos carregam mistérios,

todos são necessários

à travessia da vida.

 

Talvez amar

seja exatamente isso:

não desistir da profundidade

mesmo quando o mundo

insiste em viver na superfície.

 

Em algum lugar,

entre a última onda

e a primeira estrela,

talvez exista alguém

que não venha apenas para me encontrar,

mas que escolha, enfim,

ficar.

Tatiana Pereira Tonet
Enviado por Tatiana Pereira Tonet em 08/10/2026
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